Tratamento Cirúrgico da Epilepsia
Dois remédios já falharam e as crises continuam? A epilepsia pode ser farmacorresistente, e isso muda as opções de tratamento.
- Estimulação do Nervo Vago (VNS)
- Cirurgia Ressectiva
- Calosotomia
- Neuromodulação Cerebral
Entenda o VNS: uma técnica de neuromodulação que atua sobre as crises sem nenhuma intervenção dentro do crânio, indicada para adultos e crianças.
A Estimulação do Nervo Vago (VNS) é um tratamento para epilepsia farmacorresistente, quando dois ou mais medicamentos adequados não controlam as crises, sem qualquer intervenção dentro do crânio. Em Aracaju, o Dr. Bruno Fernandes realiza a avaliação, o implante e a programação do dispositivo, junto ao neurologista ou neuropediatra do paciente.
Autor: Dr. Bruno Fernandes, CRM-SE 3918 · RQE 3496 — Publicado em 06 de agosto de 2026 · Revisado em 06 de agosto de 2026
Você reconhece esta situação?
Os medicamentos foram trocados, combinados, aumentados, e as crises continuam. Cada nova crise traz o medo da queda, do machucado, da crise em público. A escola liga, o trabalho fica em risco, dirigir está fora de questão. A família vive em alerta permanente, e a sensação é de que a vida inteira se organiza em torno da próxima crise. Se esse é o seu caso, ou o do seu filho, há uma informação que muda tudo: quando dois medicamentos adequados, em doses corretas, não controlam as crises, a chance de um terceiro remédio resolver é pequena. É o que se chama de epilepsia farmacorresistente, e ela atinge cerca de um em cada três pacientes com epilepsia. A partir desse ponto, as diretrizes internacionais são claras: o paciente deve ser avaliado por um centro especializado em cirurgia de epilepsia. A maioria dos pacientes demora muitos anos, às vezes décadas, para receber essa avaliação, e cada ano de crises não controladas cobra seu preço em segurança, cognição e qualidade de vida.
O que é o tratamento cirúrgico da epilepsia?
Cirurgia de epilepsia não é uma única operação. É um conjunto de técnicas, escolhidas conforme a origem e o comportamento das crises de cada paciente:
Cirurgia ressectiva
Quando as crises nascem de uma região bem localizada e segura de operar, a remoção desse foco pode oferecer a maior chance de controle completo das crises. É a primeira opção a ser investigada.
Calosotomia
Indicada em situações específicas, principalmente para reduzir as crises com quedas súbitas (crises atônicas), das mais perigosas do ponto de vista de traumatismos.
Neuromodulação
Quando não é possível, ou não é suficiente, remover um foco, entra a estimulação elétrica: o VNS (estimulação do nervo vago) e, em casos selecionados, a estimulação cerebral profunda. São técnicas ajustáveis e reversíveis, que reduzem a frequência e a intensidade das crises.
Esta página aprofunda a técnica de neuromodulação mais utilizada no mundo para epilepsia, o VNS. O VNS é um sistema composto por um pequeno gerador implantado sob a pele do tórax, conectado a um eletrodo posicionado ao redor do nervo vago, no pescoço. O ponto que mais surpreende as famílias é que o VNS não envolve abrir o crânio nem tocar no cérebro: todo o procedimento é realizado no pescoço e no tórax. É utilizado no mundo há cerca de três décadas, com mais de 100 mil pacientes tratados.
Sinais de que pode ser hora de uma avaliação cirúrgica
- Crises que persistem apesar do uso correto de dois ou mais medicamentos adequados
- Diagnóstico, ou suspeita, de epilepsia farmacorresistente ou refratária
- Crises com quedas, traumatismos ou idas frequentes à emergência
- Efeitos colaterais limitantes da medicação: sonolência, lentidão, alterações de memória ou humor
- Impacto importante na escola, no trabalho ou na autonomia
- Paciente já avaliado como não candidato à cirurgia ressectiva
- Crianças com síndromes epilépticas graves, como Lennox-Gastaut, e crises de difícil controle
- Anos de tratamento clínico sem que uma avaliação cirúrgica formal tenha sido feita
Avaliação cirúrgica não significa decisão por cirurgia. Significa colocar o caso diante de todas as opções existentes, inclusive ajustes clínicos que talvez ainda não tenham sido tentados.
Quero uma avaliação do meu casoComo funciona o tratamento com VNS, passo a passo
- 01
Avaliação especializada
Neurologista ou epileptologista e neurocirurgião revisam o diagnóstico, o vídeo-EEG, os exames de imagem e o histórico medicamentoso para definir a modalidade cirúrgica com melhor resultado.
- 02
Implante
Em cirurgia de curta duração, sob anestesia geral, o eletrodo é posicionado no nervo vago esquerdo e o gerador sob a pele do tórax. Não há qualquer procedimento intracraniano.
- 03
Ativação e programação
Dias após a cirurgia, o dispositivo é ligado e programado de forma gradual, ajustando intensidade e ciclos de estimulação.
- 04
O recurso do ímã
O paciente ou familiar pode passar um ímã sobre o gerador ao perceber o início de uma crise, disparando estimulação extra que pode abortar ou atenuar a crise.
- 05
Detecção automática
Os modelos atuais detectam a aceleração dos batimentos cardíacos associada às crises e disparam estimulação extra automaticamente, inclusive durante o sono.
- 06
Acompanhamento de longo prazo
A resposta ao VNS é progressiva: tende a melhorar ao longo de meses e a se consolidar com os anos de uso, junto ao ajuste fino da medicação.
O VNS cura a epilepsia?
Não. O objetivo do VNS é reduzir a frequência, a intensidade e a duração das crises, além de encurtar a recuperação após cada crise. A resposta tende a aumentar com o tempo de uso, mas a expectativa correta é de controle, não de cura.
É verdade que não precisa mexer no cérebro?
Sim. O implante do VNS acontece inteiramente fora do crânio: uma incisão discreta no pescoço, para o eletrodo, e outra no tórax, para o gerador.
Meu filho pode fazer? Existe idade mínima?
O VNS possui aprovação e larga experiência em crianças, incluindo em idade pré-escolar em casos selecionados. A definição depende da avaliação conjunta com o neuropediatra ou epileptologista.
Quando começam a aparecer os resultados?
Diferente de uma cirurgia ressectiva, o efeito do VNS é gradual: a resposta costuma se instalar ao longo dos primeiros meses e continuar melhorando com os anos e o refinamento da programação.
Quais os efeitos colaterais?
Os mais comuns são rouquidão ou alteração leve da voz, formigamento na garganta e tosse, geralmente discretos e ajustáveis pela programação. O VNS não causa sedação, lentidão cognitiva ou sobrecarga do fígado.
Vou poder parar os remédios?
O VNS trabalha em conjunto com a medicação, não no lugar dela. Em muitos casos, o melhor controle das crises permite simplificar o esquema ou reduzir doses ao longo do tempo.
Como funciona o ímã? Qualquer pessoa da família pode usar?
Sim. Pais, cônjuges, professores e cuidadores podem ser orientados a passar o ímã sobre o gerador ao primeiro sinal de crise, gesto simples e seguro.
A bateria acaba? Como é a troca?
O gerador tem vida útil de vários anos. A troca, quando necessária, é um procedimento simples no tórax, sem tocar no eletrodo do pescoço.
Poderei fazer ressonância magnética?
Os sistemas atuais de VNS são condicionalmente compatíveis com ressonância, seguindo protocolos específicos. O paciente recebe cartão de identificação do dispositivo.
O plano de saúde cobre?
O tratamento cirúrgico da epilepsia farmacorresistente, incluindo o VNS, possui previsão de cobertura para indicações estabelecidas na saúde suplementar. O processo exige relatórios e justificativa técnica adequados, e nossa equipe orienta o paciente e a família em toda essa etapa administrativa junto ao convênio.
E se o VNS não funcionar?
O sistema é ajustável e reversível: os parâmetros podem ser reprogramados diversas vezes e, se necessário, o dispositivo pode ser desligado. O paciente segue elegível a outras estratégias.
Já me disseram que "não sou candidato à cirurgia". Essa página é para mim?
Provavelmente sim. Quando alguém ouve que não é candidato, em geral a frase se refere apenas à cirurgia ressectiva. A neuromodulação, e o VNS em particular, existe justamente para esses pacientes.
Sua dúvida não está entre as perguntas acima? Envie sua pergunta, teremos satisfação em responder.
Enviar minha perguntaQuando a causa das crises é uma lesão
Parte das epilepsias tem origem em uma lesão estrutural: um cavernoma, uma displasia, um tumor. Nesses casos, tratar a lesão e tratar a epilepsia são o mesmo problema.
Onde o tratamento acontece
Avaliação, indicação, ativação do dispositivo e acompanhamento são feitos no consultório, em Aracaju, em conjunto com o neurologista ou neuropediatra que acompanha o caso. O implante é realizado em hospital do corpo clínico: Hospital Primavera, Hospital São Lucas, Hospital Unimed Sergipe ou Hospital Decos, definido conforme o procedimento e o convênio.
Por que a equipe multidisciplinar faz diferença?
A cirurgia de epilepsia é, por definição, um trabalho de centro especializado: epileptologista, neurocirurgião funcional, neurofisiologia, neuroimagem, neuropsicologia e, nas crianças, o neuropediatra. É essa equipe que define qual técnica oferece o melhor resultado para aquele paciente, e que conduz a programação e o acompanhamento pelos anos seguintes, etapa tão importante quanto o implante.
Quem conduz o tratamento
Dr. Bruno Fernandes, Neurocirurgião
CRM-SE 3918, RQE 3496
Professor Adjunto de Neurocirurgia da Universidade Federal de Sergipe e docente permanente do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Saúde (PPGCS/UFS). Diretor do Departamento de Radiocirurgia da Sociedade Brasileira de Neurocirurgia (SBN).
Residência em Neurocirurgia pela UNIFESP, fellowship em Neurocirurgia Funcional e Radiocirurgia pelo HCor Neurociência, mestrado profissional em Tecnologias e Atenção à Saúde pela UNIFESP, doutorado em Psiquiatria pela USP e doutorado em Ciências da Saúde pela UFS, com observership em neuro-oncologia no MD Anderson Cancer Center, em Houston.
Atuação em neurocirurgia funcional e estereotáxica, com fellowship na área pelo HCor Neurociência, incluindo neuromodulação para epilepsia farmacorresistente e cirurgia das causas estruturais de crises.
Cada ano de crises não controladas tem um custo. A avaliação não tem compromisso.
Se dois medicamentos já falharam, o próximo passo recomendado pelas diretrizes internacionais não é o terceiro remédio. É a avaliação em centro especializado. Ela não obriga a nenhuma cirurgia: apenas coloca, pela primeira vez, todas as opções sobre a mesa.
As informações desta página têm caráter educativo e não substituem a consulta médica. A indicação de qualquer tratamento depende de avaliação individualizada. Resultados variam de paciente para paciente.
Vídeos sobre epilepsia
Explicações do Dr. Bruno Fernandes sobre tipos de epilepsia e tratamento cirúrgico, direto do canal no YouTube.
Transcrição dos vídeos
›Formas de epilepsia
Pouca gente fala que não existe só um tipo de epilepsia. Ela tem muitas formas: temos epilepsias de crises focais, onde a crise se origina em uma região específica do cérebro, até crises generalizadas, sem um foco específico, originadas em várias regiões do cérebro. Tem epilepsia que se manifesta através de convulsões, os movimentos que todo mundo conhece, e também epilepsia mais sutil, como uma ausência, uma alteração de conexão com o mundo. O mais importante é que cada tipo de epilepsia tem um tratamento diferente, por isso é fundamental que o profissional identifique o tipo de epilepsia daquele paciente para prescrever a melhor forma de tratar. Temos desde tratamentos medicamentosos, que resolvem a maioria dos casos, até, para os casos que não resolvem com remédios, a cirurgia — e existem várias formas de cirurgia: cirurgias de ressecção da área que está causando a irritação no cérebro, e também cirurgias para modular a forma como o cérebro funciona. Para cada caso, um tratamento específico.
›VNS: Cirurgia para epilepsia
Nos dias atuais já existe cirurgia para tratar a epilepsia. Cirurgia cerebral pode ser a solução para muitos pacientes com epilepsia que não respondem à medicação. Como funciona: identifica-se a área do cérebro responsável pelas crises e, em casos selecionados, é possível remover essa região ou desconectá-la — como desligar o interruptor das crises. Os resultados são expressivos: muitos pacientes ficam livres das crises ou têm uma redução significativa da intensidade. Nem todo paciente é candidato à cirurgia; depende de vários fatores, como o tipo de epilepsia, a localização da área afetada e a resposta aos medicamentos. Além da cirurgia tradicional, temos opções menos invasivas como o VNS. O mais importante é acabar com o estigma de que a epilepsia é uma condição incurável — na maioria dos casos ela é tratável, e as pessoas que vivem com epilepsia merecem respeito e apoio.
›Epilepsia sem crise de convulsão?
Você sabia que alguém pode ter epilepsia sem nunca ter tido uma convulsão? Epilepsia é como um curto-circuito temporário no cérebro, mas nem sempre se manifesta como a gente imagina. As convulsões são um sintoma comum, mas não é só isso: alguns pacientes experimentam ausências, uma breve desconexão cerebral, outros têm alterações sensoriais, como um cheiro estranho ou um gosto inexplicável, ou ainda medo súbito ou déjà vu intenso. O diagnóstico preciso é crucial: exames como eletroencefalograma e ressonância magnética são essenciais para entender a causa e o tipo de epilepsia. Até cirurgia pode fazer parte do plano de cuidado. Com o tratamento adequado, muitas pessoas com epilepsia têm vidas normais, plenas e ativas.